Existir, ia?



Tragou e tossiu: era o terceiro cigarro daquela noite, e a quarta dose de vodka. Olhou para as próprias mãos e dançando o rolinho entre os dedos, repassou aquela noite mais uma vez. Tudo parecia estar indo tão bem. Se não fosse o medo, a incerteza ou os pensamentos que vez ou outra voltavam para perturbá-lo poderiam estar assim, bem, de novo. Respirou fundo após outro gole: sentiu o álcool rolando por sua língua no mesmo instante que formaram-se algumas lágrimas. Bebia como se pudesse recuperar o líquido que escorria por seus olhos.

Bom seria se nada tivesse acontecido, se continuassem sendo aquilo que sempre eram. Pois bem, o destino sempre se encarrega de colocar um ponto final onde queremos pôr uma vírgula, disso ele bem sabia. Queria voltar atrás, queria pedir desculpas, queria preencher aqueles espaços silenciosos com tudo o que tinha que ser dito. Mas não foi. Queria que tivesse sido diferente.

Passou os olhos pelo local: algumas almas vazias bebiam solitárias como ele, outras conversavam entre si, em busca de iludir a solidão que insistia em aparecer nos sábados à noite. Fixou os olhos barman, ali, quieto, trocava mensagens no celular enquanto não aparecia clientela. Sorria de vez em quando para a tela, provavelmente alguma prostitutazinha qualquer. Queria ele ter a sorte de conversar com uma. Fechou os olhos como se pudesse isolar-se do mundo por alguns segundos. Respirou fundo e juntou todos os pedacinhos de si: naquela noite deixou de viver, a partir de então só existiria.

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